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Conto - A galega do cemitério de Santo Amaro



O Cemitério de Santo Amaro foi inaugurado em 1851 por ordem de Francisco do Rêgo Barros, o Barão da Boa Vista. Com o passar do tempo, os mais abastados também ocuparam espaço na necrópole. As famílias endinheiradas mandaram construir jazigos luxuosos, feitos de mármore, marcados com epitáfios escritos com letras de bronze, decorados com estátuas em tamanho natural. A riqueza desses detalhes transformou o local numa galeria de arte ao ar livre. Lá estão enterrados personagens históricos como Joaquim Nabuco, além de personalidades que se sobressaíram no campo das artes como o compositor Capiba e o cantor Chico Science. O Santo Amaro também é espaço para a devoção a uma criança transformada em santa consagrada pelo povo, sem nunca ter alcançado espaço em qualquer altar. No túmulo da menina sem nome, os fiéis pedem graças e deixam ex-votos quando os pedidos são atendidos. Garantem que ela faz milagre, mas não sabem quem ela foi: a menina enterrada ali foi vítima de um sórdido homicídio em meados do século passado e o corpo jamais foi identificado. Desconhecida também é a origem do fantasma mais visto nas imediações do cemitério.

 Trata-se de uma mulher loira, sedutora, que, depois da meia-noite, aparece nas calçadas próximas. Ela chama a atenção dos homens que circulam por lá nessas horas silenciosas e os convida a um passeio.  A história começou a ser contada na década de 1970. Na época, as supostas testemunhas diziam que a “galega” aparecia sempre usando sapato de salto alto, vestido vermelho curto e decotado. Hoje, há quem garanta que ela modernizou o figurino. Passou a usar calça jeans e chinelos, como se vê no desenho do artista plástico Fábio Rafael que ilustra este texto. Seria para conquistar os moderninhos? Tanto hoje, quanto antigamente, os marmanjos que cedem ao apelo da galega são levados ao Santo Amaro. Lá, num passeio de mãos dadas, com sussurros ao pé do ouvido,  ela…. mostra aos rapazes o túmulo onde mora!  Depois some na escuridão, em meio a uma bruma gelada.  Mas às vezes a aparição se mostra bem mais medonha e, ao fim da caminhada romântica, mostra uma face de caveira ao candidato a namorado. E o sujeito, claro, berra, molha as calças e sai  às carreiras.

 Por muitos anos, essa criatura foi o terror dos motoristas dos ônibus elétricos da CTU, a antiga companhia municipal de transporte. A garagem da empresa ficava em frente ao Santo Amaro. Não foram poucos os condutores que à noite, depois do expediente, cederam aos encantos da loira e acabaram desmaiados entre as covas. A Galega tem, aliás, diversas formas de levar o pavor ao coração dos incautos. Comenta-se que às vezes ela pede carona a motoristas e pilotos de motos que passam, nas horas de silêncio e escuridão, pelo trecho da Avenida Norte próximo ao campo santo. Há quem diga ainda que a mulher fantasma costumava aparecer no primeiro andar do prédio da antiga delegacia do bairro. Nessas dependências, se manifestava de forma violenta, quase uma Pomba-gira, chegando inclusive a arranhar agentes de polícia que estivessem lá à noite. Para alguns, as aparições só vão cessar quando o espírito da Galega for apaziguado: ela estaria à procura de um amante com quem pudesse dividir toda uma eternidade consumida em luxúrias infernais.  


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