Pular para o conteúdo principal

A verdadeira história da perna cabeluda - Raimundo Carrero






ROMANCE POLICIAL

O repórter apressado, nervoso, entrou na redação do jornal. Colocou o papel na máquina, mas estava de tal forma agitado, que não sabia como escrever. Percebendo sua indecisão, o editor procurou saber o que estava acontecendo. Gago, voz presa na garganta, precisou de alguns segundos, ainda, para ordenar as palavras. “A perna cabeluda está em Olinda”, disse, esperando a reação do chefe. Uma pessoa fora agredida, levara três pernadas no pescoço, uma na barriga, sangrando fora socorrida por populares e estava, agora, no Hospital da Restauração. E não fora a única. Invadira também a residência de uma bela moça, não respeitara pai nem mãe, com uma rasteira derrubou-a, ali mesmo, no meio da sala, diante dos olhos estarrecidos da família, que não sabia como reagir, praticou agressões.

A perna cabeluda

Foi um corre-corre na rua, gente chamando a polícia, mulher chorando abraçada com o marido, irmãos e parentes, as mais piedosas e religiosas rezando nos pés dos santuários. A pobre moça, coitada, gemia, gritava, pedia proteção. Não era fácil, no entanto, agarrar a perna. Ágil, saltava para todos os lados. Teve um rapaz, herói anônimo, que ainda pulou a janela da residência, mas nada pôde fazer porque logo recebeu uma violenta pernada na cabeça, caiu sangrando, batendo, quase morto. A perna cabeluda somente se deu por vencida quando foi escutado o gemido do carro da polícia. Saiu correndo pela porta dos fundos, meteu-se numa rua estreita, atravessou um beco e desapareceu num matagal. Os homens da rua, penalizados com o choro da moça, formaram logo uma “coluna”, armaram-se de facas, revólveres, pedaços de paus, saíram em sua perseguição. Nessa hora os policiais já vinham chegando. Juntaram-se aos guerreiros, saíram em busca da perna criminosa. Foi que um guerreiro mais afoito, que corria na frente de todos, armado com um revólver, uma peixeira e um canivete, deu grito, caiu sangrando, o corpo todo dolorido. No escuro, não pôde ver a perna cabeluda escondida atrás de uma moita. Vingativa, não apenas deu-lhe uma rasteira, como chutou sua boca e ficou pulando sobre seu peito. Os outros homens correram em seu socorro, mas havia a surpresa: confundindo-se com a escuridão, a perna pulava mais do que o saci pererê, agilíssima, de um lado para o outro, cai aqui, cai acolá, “ela está aqui”, “ela está ali”, um caindo por cima do outro, cabeça lascada, braço quebrado, barriga rasgada. Pior foi quando começou a chover: trovões, relâmpagos, muita água, sangue correndo na lama. Confundindo-se, os guerreiros agrediam-se, esmurravam-se. Um fuzuê dos diabos. Quando a perna decidiu desaparecer, ouviu-se uma gargalhada medonha, três soluços e um arroto.

Derrotados, os guerreiros retornaram para casa, feridos, alguns em macas, os policiais jurando que ela seria presa ainda naquela noite, todo contingente seria acionado, não haveria escapada. Quando entraram na rua iluminada, as mulheres esperando nas janelas – umas chorando, outras conversando agitadas – parecia uma procissão de desgraçados. O socorro foi logo providenciado. Mesmo no carro da polícia, os mais feridos foram conduzidos para o hospital. Parecia o fim do mundo. Correu um boato na rua que era o início do Apocalipse, era preciso começar a rezar com muito fervor, pois uma multidão de estrelas já se precipitava do céu, e uma legião de mortos vestia os seus corpos para sair dos túmulos, cobrando promessas aos vivos. As moças choravam, os rapazes corriam para a igreja, queriam se confessar. Teve cabeludo que raspou o cabelo, afrouxou as calças e vestiu terno. As mulheres cobriam as barriguinhas, encompridavam os vestidos.

Mas foi que a agitação cresceu mais ainda, quando já se imaginava que era chegado o momento de dormir sossegado. Os gritos de uma mulher foram escutados, misturados com uma pancadaria, voz de homem furioso berrando. De repente, a mulher foi atirada na rua, bateu com a testa no chão, quebrou a cabeça. O homem furioso apareceu com um revólver na mão. Foi logo contando: chegara em casa cansado, louco para dormir, e quando entrou no quarto, o que viu? Ao lado da mulher, estava deitada a perna cabeluda, morrendo de rir. Perdeu a paciência, puxou a mulher pelos cabelos, esfregou-a na parede. E a perna gargalhava, dava saltos em cima da cama, dançava samba, rumba e frevo. Insatisfeita, ainda deu-lhe um chute na barriga e saiu correndo. Ninguém mais podia se conformar, era mesmo o fim do mundo. Mesmo os mais afoitos não se decidiam a perseguir a malvada. Socorreram, no entanto, a mulher ferida. Vários carros da polícia apareceram para proteger o povo da rua. Os policiais traziam metralhadoras, canhões, revólveres, gás lacrimogêneo, o diabo. Armaram esquemas, trancaram as ruas, esquinas, vielas. Desistiram, porém, quando surgiu a notícia, ninguém sabe quem deu: a perna cabeluda estava pintando o diabo em Boa Viagem.


Raimundo Carrero 

Fonte: Diário de Pernambuco

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Mansfield Park" - Jane Austen

Mansfield Park é uma das obras mais complexas e fascinantes de Jane Austen, e, como sempre, a autora nos oferece uma rica análise das relações humanas, das convenções sociais e das escolhas pessoais. A trama gira em torno de Fanny Price, uma jovem tímida e de caráter firme, que é enviada para viver com seus parentes ricos em Mansfield Park. Através de sua jornada, Austen expõe as tensões entre a classe social, a moralidade e as expectativas familiares. A história está repleta de personagens memoráveis, como Edmund Bertram, que é um exemplo do herói austeniano – sensível e ético, mas, ao mesmo tempo, em dúvida sobre seus próprios sentimentos, e Mary Crawford, uma mulher encantadora, mas de valores mais flexíveis, que serve como contraste para Fanny. Através desses personagens, Austen critica o sistema social britânico, destacando a hipocrisia das convenções e as limitações das expectativas sobre as mulheres e suas famílias. Ao contrário de algumas das heroínas mais leves de Austen, Fann...

Trono de Vidro - Sarah Maas

  Escrever sobre seus livros favoritos é sempre mais difícil. Para mim, com certeza, esse é o caso da saga “Trono de Vidro”, da autora Sarah Maas. A história da série é baseada em Cinderela, com a premissa "E se a Cinderela não fosse uma serva e sim uma assassina? E se ela não quisesse ir ao baile para encontrar o príncipe e sim, ao contrário, matá-lo?". Então vamos dar alguns motivos para vocês lerem essa saga: Os personagens são inspiradores. Todos têm importância na história, mesmo que alguns você não goste no início ou que odeie depois de algumas atitudes. São tão diversos e colaboram na construção de um universo multifacetário. Você vai encontrar feéricos, guerreiros, reis, rainhas, escravas, prostitutas, mercenários, bruxas, humanos, metamorfos, deuses, criaturas misteriosas, entre tantos outros. Ela não esqueceu de incluir a diversidade racial e de gênero. Importante apontar que são abordados temas muito relevantes, como a prostituição infantil, escravidão, preconceito...

“A Viagem do Peregrino da Alvorada” - C.S.Lewis

“A Viagem do Peregrino da Alvorada” é o terceiro livro da série “As Crônicas de Nárnia”, escrita por C.S. Lewis. Publicado originalmente em 1952, o livro segue as aventuras de Lucy e Edmund, que retornam a Nárnia junto com o primo Eustáquio. Eles embarcam em uma jornada marítima a bordo do “Peregrino da Alvorada”, um navio que explora as fronteiras do mundo de Nárnia e enfrenta diversas aventuras. No livro, o trio enfrenta uma série de desafios e encontros fantásticos enquanto navegam por águas misteriosas e visitam ilhas encantadas. Eles conhecem novos personagens e enfrentam forças que testam suas virtudes e suas crenças. O tema central da obra é a busca por uma terra prometida e a exploração do desconhecido, que serve como uma metáfora para a jornada espiritual e moral. Como em outras obras de Lewis, “A Viagem do Peregrino da Alvorada” é rica em simbolismo e alegoria cristã. A jornada dos personagens pode ser vista como uma metáfora para a busca espiritual e a evolução moral. O próp...